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The Americans conclui uma jornada brilhante em sua última missão (Crítica da 6ª temporada)
Por Laysa Zanetti — 02/06/2018 às 08:27
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Aclamada pela crítica, a série de espionagem do FX encerrou sua temporada final.

FX/Divulgação

Nota: 4,5 / 5,0

“Um casal de filhos. O Sonho Americano. Nunca suspeitei. Ela é bonita. Ele tem sorte.”

Um dos elementos mais singulares de The Americans sempre foi o uso de figurino e maquiagem. Durante seis anos, peruca atrás de peruca fez com que Keri RussellMatthew Rhys interpretassem personagens dentro de personagens como uma verdadeira matrioska. Mas o verdadeiramente impressionante dessa história na verdade é o som. A trilha sonora utilizada em momentos certos e o mais distante possível do óbvio rendeu algumas das cenas mais memoráveis da série, como o incrível episódio “The Magic of David Copperfield V: The Statue of Liberty Disappears”, da quarta temporada, e a cena final do episódio “Amber Waves”, o primeiro da quinta temporada. Foi a sensação de angústia e urgência assombrando cada tensão expressa em gestos ou em olhares que fez de The Americans um ponto tão singular na história da televisão. Foi a falta de necessidade de falas que fez das atuações de Russell e Rhys pontos primordiais que elevaram o nível do já ótimo roteiro.

Justamente por isso não deveria ser uma surpresa que os momentos mais catárticos do episódio final tenham sido tão pouco expositivos. A exposição nesses casos, aliás, é praticamente desnecessária. O grande momento de confronto entre Stan (Noah Emmerich) e os Jennings é silencioso, é de prender a respiração; não é nada parecido com o confronto entre Walter White (Bryan Cranston) e Hank Schrader (Dean Norris) em Breaking Bad, mas é igualmente devastador. Isso se não um pouco mais, pois há muitas verdades na confissão de Philip. Bem como a missão se misturou com a vida real e ele e Elizabeth realmente se tornaram um casal, a amizade com Stan nunca foi apenas uma obrigação. Há uma quebra de confiança real ali entre dois homens solitários que durante os últimos anos foram melhores amigos. 

FX/Reprodução

Embora possa ser vista como um dos grandes dramas da Terceira Era de Ouro da TV (e provavelmente o último, considerando o fim e a queda de qualidade de House of Cards), The Americans tem características únicas. Aqui, não estamos falando em uma jornada solitária do anti-herói, como foi o caso de Walt, de Don Draper (Jon Hamm) de Mad Men, de Tony Soprano (James Gandolfini). Família não é a consequência do desenvolvimento pelo qual eles passam, é o que move estas mudanças. A principal pergunta que a série fez durante suas seis temporadas e seus 75 episódios foi uma só: A sua lealdade está com qual família, a americana ou a russa?

No fim, Philip e Elizabeth tinham uma decisão cruel a tomar, mas os eventos que levaram a série ao episódio final (intitulado “START”, em referência ao tratado de redução de armas estratégicas que marcou o fim da Guerra Fria), diminuíram tanto as suas possibilidades que só havia realmente uma saída, a mesma saída que era a planejada desde o início da operação: abandonar o país.

Mas abandonar os Estados Unidos e voltar para a URSS significava também o abandono de laços reais construídos ao longo dos anos. Embora fosse um plano do qual ambos tinha consciência e para o qual estavam preparados, o que está em jogo aqui é o preço sentimental que esta escolha tem para a família e para todos aqueles afetados por ela, sobretudo Stan. Não importa onde está a lealdade, porque a escolha já havia sido feita por eles.

FX/Divulgação

Uma das características mais interessantes da TV (que a difere amplamente do Cinema, mesmo tratando de sagas) é o tempo com o qual se permanece com os personagens. Para elenco e produtores é uma faca de dois gumes: há mais espaço para desenvolvê-los e entendê-los, mas também há o dever de não desvirtuá-los, e de explicar suas mudanças de personalidade, torná-las naturais. Mais uma vez The Americans é vitoriosa aqui. É possível entender perfeitamente cada decisão de cada personagem no episódio final. É apenas a coisa óbvia que eles fariam sendo quem são, e a rapidez com que Philip sugere que eles não levem Henry (Keidrich Sellati) apenas deixa claro que aquela é uma decisão que ele já raciocinava, embora os dois nunca tivessem encarado o assunto de frente. Mas ele não está errado, deixar o garoto foi um gesto altruísta pensando no melhor dele.

Enquanto a grande maioria das séries de TV aumenta o raio de possibilidades de acontecimentos para os seus arcos finais, The Americans navega na direção oposta e retorna às regras básicas que havia concebido desde o início. O estreitamento deste laço poderia ser perigoso, não ser avassalador o bastante, ser previsível a ponto de retirar a carga dramática, não ter o peso e a sensação de encerramento de um episódio final. Mas isso não acontece porque o roteiro segue exatamente as regras que ele mesmo criou, fazendo com que tudo ali soe perfeitamente natural. O último giro da faca está na decisão de Paige (Holly Taylor) ao descer do trem e permanecer nos Estados Unidos. Está na despedida silenciosa entre ela e os pais, expressa em olhares de terror e apologéticos pela janela. Está na angústia de dois agentes da KGB e de um agente do FBI que realmente não tinham outra opção a não ser seguir em frente com uma sensação inebriante de culpa. Philip e Elizabeth por deixarem para trás os filhos. Stan por ter feito amizade com o inimigo e jamais saber realmente se aquilo foi verdade ou mentira. Cá para nós: foi as duas coisas. 

FX/Reprodução

O que faz do episódio final de The Americans tão doloroso é o entendimento de que, naquela altura, indiscutivelmente a família importava mais aos Jennings do que a missão, que para eles já não fazia sentido. Philip já estava aposentado; Elizabeth estava tentando impedir os planos do Centro. Mas mesmo assim, eles precisaram escolher a URSS, uma casa irreconhecível e sem os filhos. “Nós vamos nos acostumar”, diz Elizabeth, em russo. Tem outro jeito?

Enquanto muitos esperavam que o episódio final de The Americans trouxesse pelo menos uma morte, conflitos armados e reviravoltas impensáveis, Joe WeisbergJoel Fields se mantiveram fiéis ao instinto básico de darem mais atenção aos detalhes. Apenas uma vez se vê armas empunhadas, e nenhuma delas dispara. É devastador, mas a destruição fica no campo psicológico, sempre o ponto forte deste drama de espionagem. E como a trilha sonora (num golpe praticamente fatal) deixou claro, a vida continua. “With or Without You.”

Missão cumprida, Camaradas.

 
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